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Textos

À PROCURA DE JOSÉ BARBOSA

Francisco Brennand

Em 1985, para minha surpresa, o pintor José Barbosa me presenteou com uma admirável cópia – realizada em aquarela – de um quadro de Balthus, intitulado La Patience.

No dia dezessete de fevereiro de 2001, consternado, o mundo da arte recebe a notícia da morte, na Suiça, do pintor Balthus. Suponho que, no Brasil, a escassez de palavras relativas ao fato tenha sido por conta da mais completa ignorância sobre a existência de um dos maiores pintores do século XX, o conde Balthazar Klossowski de Rola, cujo pseudônimo Balthus foi possivelmente cunhado por Rilke no seu último texto conhecido sobre alguns desenhos do ainda jovem Balthazar, escrito em língua francesa. Passados alguns meses, mais uma vez foi José Barbosa quem me enviou uma entrevista – À Procura do Essencial – entre o professor de Neurobiologia Sémir Zeki e o pintor Balthus. A coisa é de mais estranhar porque o referido professor começa a entrevista com uma pergunta estapafúrdia: “Permita-me lhe propor uma questão de ordem biológica: Por que nós vemos? Por que nós temos essa faculdade da visão? Na verdade, existe uma boa quantidade de animais que nada vê”.

Desnecessário asseverar que foi um extenso diálogo de surdos, testemunhando as instransponíveis dificuldades de comunicação levantadas por uma confrontação que coloca dois mundos, muito diferentes, face a face, embora, sob o ponto de vista europeu, ou mesmo ocidental, persevere a ideia de que a ciência apareceu para tudo discernir e tudo facilitar, daí esta entrevista ter sido aproveitada pelo chefe de redação Philip Jodidio, na conhecida revista Connaissance des Arts. No conjunto, pareceu-me algo tão tedioso e absurdo que talvez tenha sido essa uma das principais razões da morte do pintor, se é que o encontro tenha sido realmente recente. Em todo caso, José Barbosa mandou-me essa matéria por saber o peso e a importância que esse pintor representa na minha formação de artista, além de ter perfeito discernimento da herança deixada por Balthus para a cultura do século passado: alguém que soube lidar com este misterioso ofício, tão antigo como difícil, que é o ato de pintar.

José Barbosa está inscrito dentro do cenário brasileiro como um raríssimo caso de pintor que persevera nesta grande  tradição visionária, onde muitos são eleitos e poucos os  escolhidos para passarem pela porta estreita desse paraíso.  Inclusive, esses construtores de enigmas não devem ter consciência dessa qualidade, assim como o santo não tem de sua santidade, sob pena de perdê-la. É o caso de Georges Seurat, por exemplo, que supunha estar criando um método preciso  e científico e pintar, com pequenos pontos coloridos (Pontilhismo) e, no entanto, foi um dos mais enigmáticos pintores
do nosso tempo. A assim chamada mescla ótica, baseada em princípios descobertos pela Física da época, se transforma em pura poesia e mistério, que o diga a tela Uma Tarde de Domingo na Grande Jatte, que tanto interessou a Giorgio de Chirico, criador da pintura metafísica, como paradigma das fronteiras do entendimento.

A pergunta é: onde a fantasia termina e onde começa o mistério? Não pretendo mencionar apenas o sentido lúdico da fantasia, mas o espantoso mistério, aquele que não se dá e que não se explica.

Um dos ancestrais mais remotos de José Barbosa é Jerônimo Bosch, como também poderia ser, mais de cem anos depois, o Bruegel de A Queda de Ícaro, e, entre eles, o quatrocentista italiano Piero de Cosimo com suas fábulas de fim de mundo, onde criaturas semianimalescas se movimentam num ritmo de sonho e pesadelo. Não é difícil associar o pintor recifense com este último, principalmente nas suas paisagens e florestas incendiadas, onde animais e homens correm à procura da salvação, envolvidos por uma luz interior cuja origem certamente não vem da luz solar.

As telas de José Barbosa têm uma luz sombria e difusa e intensamente pessoal, a ponto de, às vezes, causar um certo temor, como se algo catastrófico se pronunciasse. Isso foi observado num quadro onde um Zepelim, em forma de peixe, sobrevoa o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro: uma cena de cartão-postal transformada numa tragédia iminente. Numa outra paisagem envolta pela névoa da madrugada, um fazendeiro dirige-se solitário em sua carroça, pelo matagal, onde tudo indica que, alguns passos adiante, será ferido de morte na emboscada de um antagonista. Essas associações que podem parecer gratuitas não o são para os olhos de um artista acostumado a descobrir parentescos remotos que jamais falham na condução do pincel de um verdadeiro pintor. Acrescentaria ainda, neste conjunto, um outro cenário com bois que, de uma maneira atropelada, atravessam um perigoso pantanal, na ânsia de galgar margens inexistentes.

Nos seus mais recentes trabalhos, José Barbosa insiste em criar grandes orgias no ventre de um peixe, num sentido escatológico que se associa a Jerônimo Bosch. Assim também quando um enorme gato parece despencar de uma árvore e, com sua bocarra, ameaça devorar uma Mulher Esfinge. A mesma loucura e insensatez estão presentes no seu quadro Sourouba, de 1982, onde mulheres e homens torpemente enlaçados promovem um bacanal sem começo nem fim.

Nesse roteiro de assombrações, descubro a Dama de Vermelho como uma das cortesãs de Carpaccio, enquanto que O Anjo Caído, ainda iluminado por uma luz celestial, defronta-se com um céu enegrecido e tormentoso, cuja promessa é o inferno e que nos remete às imagens visionárias de Willian Blake.

Enfim, sem que José Barbosa necessariamente tenha conhecimento de sua trajetória através da História da Arte, cabe a nós outros – por puro deleite do olhar ou do espírito – assinalar esse percurso visionário. Como evitaríamos presenciar esta Grande Garça Branca, solitária, numa paisagem verde, sem lembrar do aduaneiro Henri Rousseau? Igualmente evoca a imagem poética de Tupan Sete Lá onde cresce a solidão e sonha a garça. De minha parte, nesse desabrido arsenal de referências, esclareço tratar-se de um ato muito comum entre aqueles que cultivam uma tradição oculta, ou seja, exumar arqueologicamente um mundo só aparentemente desfeito.

Em abril de 1951, Salvador Dalí lançou seu livro 50 Segredos Mágicos para Pintar, indicado com uma tabela de diferentes notas de 0 a 20 com os itens: ofício, inspiração, cor, desenho, gênio, composição, originalidade, mistério e autenticidade, para qualificar grandes artistas de Leonardo da Vinci a Mondrian. No capítulo mistério – um aspecto pouco comum na arte brasileira -, Dalí só dedica nota máxima a Leonardo da Vinci, a Rafael e a Vermeer de Delft, conferindo a Picasso nota 2 e a Mondrian nota 0. Sem nenhum escrúpulo, atribuo a José Barbosa, com seu notável sentido de mistério, a mesma nota 20.

 

“EU VI O MUNDO…”

Maria Hirszman

José Barbosa sabe combinar, como poucos, um profundo interesse pelo mundo a sua volta com um fascínio permanente por elementos alegóricos, carregados de potência simbólica. Suas telas e talhas são povoadas por seres míticos, que o acompanham há décadas, como o pássaro branco de asas abertas e bico perfurante, os peixes arredondados que nadam por toda a parte, as figuras femininas ao mesmo tempo sensuais e maternas, ou os buquês de flores que deslumbram por suas formas e cores. São componentes de composições complexas, cuidadosamente simétricas num equilíbrio elegante.

Uma de suas qualidades é a capacidade de aventurar-se por diferentes caminhos em busca de uma expressão ao mesmo tempo autoral e universal. Esse olhar curioso, a partir de um inconfundível ponto de referência afetivo e geopolítico, remete à obra icônica de Cícero Dias Eu Vi o Mundo… Ele Começava no Recife. A monumental tela do modernista pernambucano, realizada em 1929 e considerada como um dos marcos fundadores do modernismo no Brasil, pertence ao mesmo universo onírico e aventurosde Barbosa, o que explica o título da presente exposição.

Dessa forma, reafirma-se o pertencimento ao Nordeste como lugar de partida e a existência de uma mesma família poética, na qual reminiscências sensíveis dão a tônica,mas não impõem um caminho único nem impedem uma relação de troca com o outro.

A capacidade de aliar diferentes referências, temáticas e gêneros dão liberdade à obra de Barbosa. Ele não se prende a técnicas – trabalha simultaneamente a madeira, que aprendeu a entalhar ainda menino com seu pai marceneiro, e a pintura, que descobriu de fato mais tarde, quando foi viver em Paris, na década de 1970. Nem tampouco a gêneros específicos, apesar do claro apreço pela paisagem e pelo nu feminino. Tampouco pode ser restrito a categorias estanques, como o regionalismo e a arte popular. Sua obra dialoga intensamente com as produções que acompanha e admira.

Há em sua arte, sobretudo na pintura, uma fascinante confluência entre a tradição da cultura popular e a incorporação de poéticas e práticas da arte erudita ou de vanguarda. Seja aquela de seus companheiros de trajetória na construção de uma visualidade pernambucana, como Francisco Brennand, Samico, José Claudio e Guita Charifker, como a dos grandes mestres que revisita com frequência, como Matisse e Cézanne. “Nevermore”, uma magnifica talha com mais de um metro de comprimento, retoma quase na forma de uma homenagem a obra de Gauguin e seu fascínio pelos ares e habitantes do Sul.

Curioso e agregador, Barbosa procura conciliar campos que a crítica em geral mantém estanques. As mesclas de narrativa e de gênero são evidentes. Em trabalhos como “Grande Peixe Voador III”, duas figuras conversam tranquilamente dentro da barriga do animal, cercadas por animais, sereias, conchas, estrelas. A aparente normalidade – reforçada pelo uso de uma mesma unidade cromática – contrasta com o caráter absolutamente surreal da representação. O peixe zepelim, cuja barriga abriga um erotismo sutil e harmonioso, plana sobre uma típica cena litorânea nordestina, que se desenha, bem rebaixada, no horizonte ao longe, promovendo uma aliança sedutora e inusitada entre naturalismo paisagístico e evocações fantasiosas potentes.

O mesmo amálgama de referências, que ele cuidadosamente compõe em sutis harmonias, se faz sentir nas combinações curiosas que promove entre os lugares que lhe são familiares, quer nos panoramas reconhecíveis de cidades como Olinda e Rio de Janeiro, quer em suas sugestivas paisagens imaginadas. Ou nos impressionantes totens, mesclas de pintura, escultura e talha, aos quais tem se dedicado mais intensamente nos últimos anos. Ao mesmo tempo marco de referência e ornamento decorativo, peças como Totem III, que ocupa o centro da exposição, derivam de um desejo de totalidade em que nenhum aspecto parece ser deixado de lado. Em suas várias faces, de potente força imagética e cromática, nenhuma forma, repertório ou gesto é ignorado, funcionando como um núcleo de condensação do pensamento e do fazer artístico de Barbosa.

Nas paredes laterais desse atraente objeto, veem-se, ecoar, com persistência, os vários caminhos percorridos por Barbosa em seus mais de 60 anos de produção e a corporificação das pesquisas que compõem essa exposição. É como se a caixa de guardados1 que deu origem à mostra e na qual ficou depositada, por quase dez anos, a maioria das obras agora exibidas se materializasse num diálogo aglutinador, em que tempo e espaço, cortes e pinceladas se fundem.